A tese “Oportunidades perdidas: vulnerabilidade programática e os homicídios de adolescentes no Município de São Paulo (2015–2020)”, de autoria de Marcelo Ryngelblum, egresso do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (PPGSC-FMUSP), foi vencedora do Prêmio CAPES de Tese 2026, conforme o Edital nº 14/2026.
Marcelo Ryngelblum – Por João Paulo Gugliotti.
Defendido em 2025, o trabalho foi desenvolvido sob orientação da Profa. Dra. Maria Fernanda Tourinho Peres, professora associada do Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP e docente do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva.
Concedido anualmente pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), o prêmio reconhece as melhores teses de doutorado defendidas em programas brasileiros de pós-graduação stricto sensu, considerando critérios como originalidade, qualidade e relevância científica, tecnológica, cultural e social.
Maria Fernanda Tourinho Peres e Marcelo Ryngelblum – Por João Paulo Gugliotti.
A premiação reconhece a excelência da trajetória acadêmica de Marcelo Ryngelblum, a qualidade da orientação realizada pela Profa. Maria Fernanda Tourinho Peres e a contribuição do PPGSC-FMUSP para a formação de pesquisadores e para a produção de conhecimento socialmente relevante no campo da Saúde Coletiva.
Sobre a tese
A pesquisa parte de um dos mais persistentes desafios sociais e de saúde pública no Brasil: a associação entre violência urbana, desigualdades sociais, trajetórias escolares e homicídios de adolescentes.
Entre 2015 e 2020, o Município de São Paulo registrou 1.036 homicídios de adolescentes entre 10 e 19 anos, segundo dados da Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo. A partir desse cenário, a tese investigou as oportunidades perdidas de prevenção da violência letal ao longo dos contatos desses adolescentes com diferentes instituições e políticas do Estado, incluindo Educação, Saúde, Assistência Social, Justiça e Segurança Pública.
Orientado pelo conceito de vulnerabilidade programática, o estudo analisou especialmente a relação entre evasão escolar e homicídios de adolescentes. Por meio da metodologia de record linkage, foram integradas informações provenientes de diferentes bases de dados, permitindo a construção de um banco intersetorial com registros de adolescentes vítimas de homicídio e de adolescentes que permaneceram vivos ou morreram por outras causas.
Marcelo Ryngelblum e Maria Fernanda Tourinho Peres – Por João Paulo Gugliotti.
Com desenho de caso-controle, a pesquisa identificou uma frequência significativamente maior de evasão escolar entre adolescentes vítimas de homicídio, indicando forte associação entre abandono escolar e risco de morte violenta. A análise demonstrou ainda que o histórico de conflito com a lei explica parcialmente essa relação — correspondendo a 24% do efeito entre meninos e 14% entre meninas —, embora a evasão escolar tenha permanecido como fator de risco independente.
Entre as vítimas de homicídio, 94% eram do sexo masculino e 67% eram negras, com predomínio de baixos níveis de escolaridade e condições de vulnerabilidade socioeconômica. Além disso, 57% apresentavam histórico de conflito com a lei e 40% haviam cumprido medida socioeducativa de internação na Fundação CASA. A intervenção policial correspondeu a 55% das mortes analisadas. Os resultados mostram que muitos desses adolescentes haviam circulado, antes da morte, por diferentes instituições e políticas públicas, frequentemente entre dispositivos de cuidado e de repressão. A tese identifica, assim, diferentes momentos em que intervenções institucionais poderiam ter contribuído para modificar suas trajetórias.
Ao compreender a evasão escolar não apenas como um atributo individual, mas também como expressão de falhas das políticas públicas e de violações de direitos, o estudo reforça a importância de estratégias de permanência escolar, da articulação intersetorial e de políticas orientadas pela garantia de direitos para a prevenção dos homicídios de adolescentes, especialmente em contextos marcados por profundas desigualdades raciais e socioeconômicas.
Impacto na opinião pública
Além do reconhecimento conferido pelo Prêmio CAPES de Tese 2026, o trabalho de Marcelo Ryngelblum tem ampliado sua circulação para além do campo acadêmico, contribuindo para qualificar o debate público sobre as relações entre evasão escolar, desigualdades sociais e violência letal entre adolescentes. Ao evidenciar a recorrência do abandono escolar nas trajetórias de jovens vítimas de homicídio, a pesquisa desloca a interpretação do fenômeno de uma leitura centrada em comportamentos individuais para uma abordagem atenta às condições sociais e institucionais que estruturam essas trajetórias e às sucessivas oportunidades de proteção que deixam de ser efetivadas pelo poder público.
Em outubro de 2026, o estudo ganhou destaque também na TV Cultura, em reportagem do Jornal da Tarde intitulada “Estudo liga abandono escolar a mortes de adolescentes em SP”. A repercussão pública dos achados reforça a relevância social da pesquisa ao inscrever a violência letal juvenil no terreno das vulnerabilidades programáticas e das falhas de articulação entre políticas e serviços. Nesse sentido, a prevenção dos homicídios de adolescentes não pode ser reduzida à identificação de fatores individuais de risco, mas exige compreender de que modo escola, saúde, assistência social, justiça e segurança pública produzem, reconhecem — ou deixam de reconhecer — situações de vulnerabilidade ao longo do curso de vida. A pesquisa, assim, contribui para recolocar a violência juvenil como problema social e institucional, cuja prevenção depende da capacidade do Estado de construir respostas intersetoriais antes que trajetórias marcadas pela exclusão sejam definitivamente interrompidas pela violência.
"Oportunidades perdidas: vulnerabilidade programática e os homicídios de adolescentes no Município de São Paulo (2015–2020). 2025. Tese (Doutorado) – Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2025."